A Corva

ANDRESSA CANTERGIANI

O que pode o artista diante da mão que oprime e censura? De certo, a resposta mais arguta seria: criar. A arte, enquanto oferta desisteressada e livre de uma alma criativa e naturalmente ansiosa, é resistência em cenários carregados de controle, normatividade, sendo também, em tempos de liberalismo extremo, um respiro diante da competitividade que cronometra a vida atropelando sensibilidade e poética. Em sua segunda individual em uma galeria de Porto Alegre, Andressa Cantergiani, cuja trajetória artística se iniciou no teatro, evoca primordialmente a imagem do Corvo para criar metáforas de alívio, cura, sabedoria e liberdade. Enquanto o pássaro de penugem preta, necrófago, perspicaz, que é capaz de reproduzir o som da voz humana representa para alguns povos - especialmete os cristãos - um ente mítico que transita entre o mundo dos mortos trazendo maus presságios e azar, em outras culturas ele é símbolo de proteção, fertilidade e temperança.

Misturando os significados positivos e negativos atribuídos ao animal, a artista monta um ambiente de exposição de caráter teatral e dramático, onde subjaz uma aguçada crítica ao momento de transição política que o país enfrenta, onde restos de um passado envolto em sombras autoritárias são exumados. A questão, contudo, é evocada de modo contundente mas ao mesmo tempo elegante no conjunto de peças que apontam possibilidades de voos livres da palavra, do corpo e do pensamento.

Esta exposição é construída a partir da performance Raven, realizada na abertura, na qual as costas da artista-performer ganham dolorosas porém altivas asas negras em um processo que adapta penas de ave em agulhas de acupuntura. A ação performática foi realizada pela primeira vez no stand da Mamute na feira SP Arte em abril de 2019 - ambiente que vem a ser pouco confortável para esse tipo de ações artísticas, seja para os artistas como para o público, mas que ao gerar fricção provoca, ao mesmo tempo, uma reação interessante de espanto e curiosidade misturados. Em Porto Alegre os acessórios que compõem a ambientação do ato ao vivo permanecem na galeria após a ação juntamente com outros objetos, como um microfone em um pedestal aberto ao público, oito livros que sofreram censura política em algum momento da história do Brasil e 80 cartuchos de balas, usados.

Estes últimos artefatos fazem alusão direta à violência institucional que cotidianamente ceifa a vida de inocentes como Evaldo dos Santos Rosa, músico negro carioca executado no Rio de Janeiro quando

saía com a família em uma manhã de domingo.

O ambiente expositivo-performático projetado pela artista narra de modo solene o clima deopressão e medo que para muitos brasileiros, incluindo artistas e educadores, começa a pairar no ar sufocando-nos. Nesse contexto, contudo, Andressa propõe que optemos pela astúcia e a resiliência do Corvo, com suas asas de liberdade, ao invés de sucumbirmos à superstição do mau agouro e resignação ao destino implacável. Em um processo que não se encerra na abertura da mostra, outras obras como registros da ação apresentada na inauguração e proposições de participação do público são exibidas. Desse modo, a exposição vai se completando e transformando ao longo dos dias.

Trabalhando em colaboração com distintos profissionais, a artista preparou peças que de algum modo possuem co-autoria, como é o caso das esculturas-jóias desenhadas por Alice Floriano, a maca-de-cura projetada por Eduardo Saorin, que também assina os registros da performance com Dani Amorim e Raquel Brust, além da participação fundamental da acupunturista Joana dos Santos.

Essa realização em conjunto acompanha a prática de Andressa Cantergiani, cujo processo criativo é inspirado pelo modo de trabalho teatral, coletivo, tão distinto daquele solitário no ateliê.

CORVA, portanto, é uma exposição-espetáculo, um drama de muitos atos concentrado em um só, feito para a galeria que não é teatro. Como a performance dá o tom no lugar da dramaturgia, a artista toca nas coisas do mundo real com o leve verniz de ficção próprio do espaço-entre performático, no qual a realidade é transmutada sem que seja tornada pura representação. A fantasia existente é bem mais relato da vida mesma, o que pode ser dolorido como agulhas na carne. Estes artefatos cravados no corpo, porém, trazem tratamento, ativam energia, despertam o físico. Portanto não se assustem com a imagem artística desse corpo levemente perfurado! A arte nunca será mais dura que a vida mesma.

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GALERIA ALICE FLORIANO

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